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Podemos usar o "não" na educação dos cães?

Nos últimos anos tenho ouvido bastantes teorias “a favor” e “contra” o uso da palavra “não” em educação de animais de companhia.

Vamos falar maioritariamente de cães, é com a espécie que mais trabalhamos, e cujo comportamento mais estudamos na Cute Pet’s World.




Sermos a favor ou contra, bem eu diria que neste caso é um “nim”.

Tendencialmente adotamos a teoria que pensamos ser mais “canina” possível, isto é, se for algo benéfico para os cães estaremos a favor, já no caso de os prejudicar não poderíamos deixar de estar contra.

E sabem, neste caso para os cães é indiferente, pois não sabem o significado do “não” para eles é desprovido de qualquer valor.

Já para o ser humano, o "não" tem significados vários: impedimento, insatisfação, recusa, negação, proibição…entre outros. Apenas os enumeramos aqui para que seja claro, que mesmo para nós humanos – que comunicamos através do mesmo código não é assim tão simples saber o significado do “não”.

Por exemplo vocês estão a arrumar um livro na estante: atrás de vocês aparece uma voz a proferir o “não”. Provavelmente a primeira reação seria de surpresa, e de seguida iriam tentar perceber a que se referiam: não era nessa prateleira? não vos queriam aí? Detinham a vossa ação por uns segundos procurando mais informação.

O que dizer sobre a confusão que se gera na mente de um cão verdade?


Gostava que víssemos aqui o porquê de precisarmos tanto dizer que “não” aos cães.

Facilmente em consultas me referem a necessidade do cão saber o significado do “não” por uma questão de disciplina e respeito para com o dono. Tentando compreender um pouco melhor o que as famílias querem dizer com essa expressão “disciplina e respeito” retirei varias conclusões que vos deixo:

- que o comportamento do cão se adeque aos valores sociais da sua família (cada familiar ter o seu local favorito no sofá, não querendo a companhia do cão por aí, partilhar refeições na mesinha de centro da sala, não querendo que o cão roube comida…estes são apenas alguns exemplos de situações em que o “não” surge)

- que o cão demonstre, através dos seus comportamentos, saber qual seria a vontade do seu dono em contexto específico (cumprimentar pessoas sem saltar para cima delas, fazer as necessidades fora de casa…entre outros)

- evitar perigo iminente para a saúde e segurança do cão ou dos humanos da família (puxar a trela, comer lixo na rua…)

- que o cão deixe de expressar medo, necessidade de espaço, ou tente parar os comportamentos dos humanos através do rosnar, morder o ar, ou em cúmulo morder as próprias pessoas.

Penso que aqui estão as maiores motivações de utilizarmos o "não" com os cães.



Ora sabendo já que para os cães a palavra "não" é desprovida de significado, inconscientemente tentamos atribuir-lhe esse significado. Fazemo-nos acompanhar de uma ou várias atitudes que deixo como exemplo associadas a palavra “não”:

- postura corporal ameaçadora

- voz grossa

- tom de voz alto

- dirigimo-nos ao cão e debruçamo-nos sobre eles

- por vezes inclusive damos safanões, palmadas, esticões na trela…

- e outros

Nenhuma dessas posturas nos parece amistosa, pelo contrário todas elas carregam um pouco de frustração, desânimo, até alguma ameaça e intimidação para com os cães.

Ora uma palavra que não era mais do que um simples som, agora como mínimo será uma antecipação por parte do cão das nossas atitudes que a acompanham (esse mecanismo de aprendizagem é o mesmo que o Pavlov usou com a campainha recordam-se? aqui o "não" substitui a campainha).

Assim, numa viagem de segundos, uma família que apenas queria colaboração, evitar o perigo iminente e gozar a companhia de um cão em momentos sociais, transforma várias alturas do seu dia a dia em momentos de tensão, ansiedade, medo e frustração através do contínuo “não”.

Bem, ou não muito bem na verdade, mas o que podemos fazer então em relação a isso?

Se usarmos o “não” que significado dar lhe e como fazê-lo?


1º Trabalhe com o ambiente a seu favor

Prepare a sua casa para a vinda de um cão, cachorro ou adulto, ele não sabe o que para si tem estima, valor e irá querer explorar tudo o que estiver ao redor. Guardar os objetos, recolher tapetes e ter atenção em não deixar nada ao alcance do cão irá poupar-vos muitos “não’s”.


2º Estabeleça bem as necessidade, regras e limites para si em primeiro lugar.

Seja consistente em segui-los (se não é opção o cão subir para o sofá então não o pode fazer nem consigo, nem com os sobrinhos, nem com os avós - que fique bem claro, para nós os cães são muito bem vindos nos sofás, se não queremos que o cão roube comida da mesa então nunca devemos deixar restos de comida em cima da mesa da cozinha ou banca)


3º Como podemos usar o “não”

Se lá em casa o “não” sai vos com facilidade e querem dotá-lo de significado para o cão, tenham em atenção seguintes fatores:

- moderem o tom de voz não faz falta levanta-lo

- tenham a certeza que o cão não está assustado nem a sentir-se ameaçado

- o cão não deve interromper o comportamento apenas por ouvir o “não”

- digam “não” de forma tranquila e amistosa ao mesmo tempo que mostram alternativas que o cão deve preferir àquele comportamento.

- por exemplo, o cão que salta para as pessoas. Assim que ele tem patas em cima das pessoas podem, seguindo critérios anteriores, dizer “não” e pedir a pessoa que rode o seu corpo a 180º.

- desta forma as patas do cão irão descer até ao chão e a pessoa deve, em alternativa baixar-se e cumprimenta-lo enquanto aquele mantem as 4 patinhas no chão.


Muito importante!!!


Se precisam de usar o “não” várias vezes ao dia, e muitas delas na mesma situação, ou circunstância, é provável que precisem de compreender melhor o que estará a falhar na comunicação entre a família e o cão.

Todos os cães que compreendem a mensagem que lhes é passada e se sentem escutados de volta preferem muito mais oferecer comportamentos agradáveis para todos.

Não percam tempo, peçam ajuda.

O que vos parece difícil, com o conhecimento e guia certo transforma-se num pequeno desafio cheio de momentos prazerosos partilhados com o vosso cão.



Este texto foi escrito com enorme carinho por todas as famílias caninas, gostaram de ler?


Iryna Lehka

Educadora Canina e Consultora de Comportamento Animal

Cute Pet's World


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